Há duas regras na política portuguesa. Quando o PS está no governo a realidade é sempre pior do que parece. E quando este abandona o poder fá-lo subitamente e deixando o país em apuros (2002 e 2011).

1. Há duas regras na política portuguesa. Quando o PS está no governo, a realidade é sempre pior do que parece.

A esta capacidade de esconder a realidade, muita gente chama a boa política de comunicação dos socialistas. A segunda regra diz respeito ao modo como os governos socialistas abandonam o poder: subitamente e deixando o país em apuros. Em 2002, Guterres demitiu-se inesperadamente, após umas eleições autárquicas, deixando um “pântano atrás de si.” Em 2011, menos de dois anos depois de ser reeleito, Sócrates saíu de São Bento com o país falido e com a troika a chegar.

É possível argumentar que dois casos não fazem uma regra e que o PS terá mudado. O PS de Costa não seria o de Guterres nem o de Sócrates. Mas alguém acredita mesmo nisso? Obviamente que não, nem mesmo os socialistas. Os defeitos são os mesmos, e não há virtudes novas. No essencial, o PS de hoje é uma continuidade do PS de Guterres e sobretudo do PS de Sócrates. Mas há um aspeto em que a situação é bem pior. Em 2002 e em 2011, o PS governava sozinho e com maiorias sólidas, incluindo uma maioria absoluta em 2005. Agora governa com o apoio da extrema esquerda. Se os governos do PS, sem o apoio de comunistas e de bloquistas, acabaram mal, só um milagre permitirá que a geringonça acabe bem.

Dois anos depois do início da geringonça, não há um programa comum para a segunda metade da legislatura, já não há coligação, e o próprio governo não consegue evitar uma imagem de desorientação. Os ataques à economia por parte do PCP e do BE nas últimas semanas são muito graves e e levantam preocupações muito sérias para os próximos dois anos. Olhando para o que aconteceu, percebemos que os velhos (PCP) e os novos (BE) comunistas prosseguem três objectivos. Querem expulsar investimento externo do nosso país. A estratégia destruidora do PCP e do seu braço armado, a CGTP, na Auto Europa é o caso mas visível, mas não é o único. Os sindicatos comunistas estão igualmente activos contra a Somincor nas minas de Neves Corvo, em mais um ataque ao investimento privado. A tentativa do Bloco de Esquerda de aumentar o valor das taxas sobre as empresas de energia renovável visa também a expulsão do investimento externo. E não desistiram.

Em segundo lugar, depois do que aconteceu com as empresas de transportes, com o apoio do governo, a extrema esquerda quer reverter mais privatizações. O próximo alvo é os CTT. A nacionalização dos CTT afectaria seriamente o investimento externo em Portugal. Esperemos que os mesmos ministros e conselheiros do PM que evitaram o aumento da carga fiscal sobre as energias renováveis, travem igualmente a nacionalização dos CTT. O padrão de actuação do PCP e do BE é claro. Ataques aos sectores económicos de sucesso, e que exportam, e ao investimento externo. Querem prejudicar tudo o que contribui para o crescimento da economia e para a criação de emprego. Dito de outro modo, as esquerdas radicais seguem uma estratégia para enfraquecer a economia portuguesa. Desde as nacionalizações da década de 1970, não assistíamos a uma estratégia concertada para causar danos graves na vida económica do nosso país. O Presidente da República e os empresários portugueses não podem assistir a esta tentativa de destruição da economia portuguesa em silêncio.

Por fim, o PCP e o BE querem aumentar a colonização do Estado pelos seus camaradas. O PCP já reforçou a presença sindical nas empresas de transportes públicos e no ministério da Educação. O BE quer colocar cada vez mais militantes no Estado. Se olharmos para o perfil dos militantes do BE, vemos um grupo de pessoas que trabalharam toda a vida para o Estado ou que foram crescendo na política. É uma coligação de funcionários públicos e de políticos profissionais. Sabem gastar dinheiro, mas não fazem a mínima ideia de como se cria riqueza. Nunca tiveram que pagar ordenados, nunca criaram postos de trabalho e nunca contribuíram para a riqueza do país. Sabem lutar para aumentar os orçamentos dos seus serviços e contribuem para aumentar a despesa pública. Fora da esfera do Estado, não têm vida profissional. Sem o Estado, ficariam perdidos e sem rumo profissional.

O governo e os sectores moderados do PS, que acreditam na iniciativa privada, na economia de mercado e que conhecem a importância do investimento externo e das exportações, deveriam estar preocupados. A popularidade do governo resulta unicamente da melhoria da economia nacional. Tem beneficiado do trabalho do anterior governo e do bom estado da economia europeia. Os ataques do PCP e do BE à economia portuguesa constituem em última análise um ataque ao governo. O PS vai continuar a assistir passivamente a estes ataques?

2. Nos próximos tempos, vai discutir-se se o BE estará preparado para ir para o governo. A entrevista de Francisco Louçã, o líder de facto do Bloco, ao jornal i há cerca de uma semana indica que não está. Além de ter anunciado a sua versão da vinda do Diabo, a entrevista constitui um ataque à integração europeia e a defesa do regresso à soberania nacional absoluta. Prefere um país independente e pobre do que um país integrado na europa e mais desenvolvido. Louçã confessou que o BE é anti-europeu e que pretende a construção do socialismo num só país. Para Louçã, afinal, Lenin triunfa sobre Trotsky. Como poderia o PS governar com um partido anti-europeu? Mais uma vez, esperemos que as vozes moderadas do PS se pronunciem.

João Marques de Almeida
Fonte: Observador

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