Opinião

Raríssimas: a história que ainda está por contar

Paula tinha a casa. Vieira da Silva o ministério. Sónia tratava da estratégia. É o que basta para termos uma IPSS feliz.

Eu sei que as fotos românticas de Manuel Delgado e Paula Brito e Costa a passearem no Rio de Janeiro são a cereja picante em cima do bolo da Raríssimas, mas o mais interessante na entrevista de Ana Leal ao ex-secretário de Estado da Saúde não foi isso.

A parte realmente truculenta — e realmente importante — foi a divulgação dos mails em que Paula Brito e Costa apresentava as suas justificações para contratar Manuel Delgado por valores proibitivos: “Como sabes, estive com o Dr. Manuel Delgado, e ele aceitou ir para a Casa dos Marcos […]. Vai custar-nos 200 mil, é muito, mas eu sei que ele põe a casa no mapa do mundo e a fazer dinheiro!!!! Ele diz que o guito há-de aparecer.” E mais tarde: “Um Manuel Delgado a gerir a nossa casa abanava até o poder político, uma vez que ele é PS e homem de Correia de Campos, que não tarda tomam o governo outra vez e nós ficamos na mó de cima.”

Esta conversa ocorreu durante o governo de Passos Coelho, e Paula Brito e Costa está de parabéns: não só revelou um excelente talento para que o “guito” aparecesse (e para canalizar algum para o seu próprio bolso), como deu mostras de grande competência ao nível da previsão política. De facto, não só o PS “tomou” (adoro a escolha deste verbo) o governo outra vez no final de 2015, como Manuel Delgado acabou secretário de Estado da Saúde. Bravo!

Embora a reportagem da TVI não tenha identificado a data exacta dos mails em causa, supõe-se que a troca de correspondência tenha ocorrido no início de 2013. Manuel Delgado foi “consultor” da Raríssimas — coloco “consultor” entre aspas porque ele nunca chegou a explicar que actividades realmente desempenhou na instituição — entre Abril de 2013 e Dezembro de 2014. A Casa dos Marcos inaugurou em Novembro de 2013 (“um projecto de 5,5 milhões de euros que pretende beneficiar mais de cinco mil portadores de doenças raras e respectivas famílias”, anunciava o PÚBLICO de então), e em 2015 continuou a sua expansão, com a abertura da Unidade de Cuidados Continuados Integrados, um clássico na evolução das IPSS: quanto mais serviços e mais camas tiverem, mais dinheiro recebem.

Entre uma coisa e outra, não só Manuel Delgado foi desempenhando o duplo papel de consultor e conquistador, como Vieira da Silva ocupou a vice-presidência da Assembleia Geral da Raríssimas entre 2013 e 2015, e a sua companheira e deputada do PS Sónia Fertuzinhos viajou até à Suécia (Setembro de 2016) a convite da instituição, no âmbito da “implementação da Estratégia Nacional Integrada para as Doenças Raras 2015-2020”, aparentemente a seu cargo. Ou seja, Paula tinha a casa. Vieira da Silva o ministério. Sónia tratava da estratégia. É o que basta para termos uma IPSS feliz.

Acerca de tudo isto, e como habitualmente, o ministro da Segurança Social disse nada. Ele garante estar “de consciência tranquila” — nem a sua consciência conhece outro estado — e confessa-se ignorante do que se passava na Raríssimas, quer quando vice-presidia à assembleia geral, quer quando, já ministro, recebia na sua secretária queixas sobre a instituição. Deixo dois conselhos: 1) passar a pente fino as contas da Raríssimas e da construção da Casa dos Marcos; 2) oferecer ao ministro da Segurança Social um novo par de óculos. Vieira da Silva começou a ver muito mal em 2005 e ao longo dos últimos 12 anos a sua situação não tem parado de se agravar. Nem sequer é doença rara: acontece muito a ministros, em geral, e a socialistas, em particular.

Opinião de João Miguel Tavares
Fonte: Publico

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