Esta vacina curou o cancro em 97% dos ratos. O que vai acontecer nos humanos?

Uma injeção feita com dois produtos biológicos curou o cancro em 97% dos ratos. E eliminou tumores e metáteses em todo o organismo. A vacina vai agora ser testada em humanos. Como funciona?

Os cientistas da Universidade de Stanford descobriram uma vacina feita com dois produtos biológicos que, se injetada diretamente num tumor sólido, pode curar o doente e livrá-lo de outras massas tumorais ou metástases que possam estar espalhadas pelo corpo. O que essa injeção faz é recrutar os linfócitos T — glóbulos brancos responsáveis por matar células danificadas — para patrulhar o organismo e eliminar as células cancerígenas que encontrar pelo caminho.

A forma como a injeção atua não é nova, porque outros cientistas já descobriram tratamentos que funcionam da mesma maneira: a novidade são esses dois produtos biológicos, que nunca tinham sido experimentados juntos e que agora provaram ter resultados estrondosos em ratos. Quando testados nos animais, o “cocktail” composto por um anticorpo e uma molécula conseguiu eliminar os tumores em 97% dos roedores. Mas apesar de esse ser um número esperançoso para humanos, ainda há muitas provas para dar. E muitos obstáculos para ultrapassar, explica ao Observador Bruno Silva Santos, vice-diretor do Instituto de Medicina Molecular em Lisboa.

Como foram feitos os testes

Primeiro, os investigadores pegaram em 90 ratos de laboratório e transplantaram uma massa tumoral subcutânea para debaixo de uma das axilas do animal. Quando a massa já estava desenvolvida, o que ocorria ao fim de alguns dias, os cientistas injetavam a mistura de produtos biológicos diretamente no tumor: ao fim de entre dez e quinze dias, o tumor tinha desaparecido. Depois, os cientistas instalaram uma massa tumoral debaixo de uma axila e outra massa do mesmo cancro na outra axila: descobriram que, com recurso a uma única vacina, não só desaparecia a massa tumoral que sofria a injeção como também a outra, que não tinha recebido qualquer tipo de tratamento.

A seguir, os cientistas puseram um linfoma numa axila do rato, outro linfoma na outra axila e um tumor no cólon. Quando deram a injeção num linfoma, só esse e o outro linfoma é que desapareceram, e o cancro no cólon ficou na mesma. Isso aconteceu porque “só os tumores que partilham as mesmas proteínas é que podem ser curadas ao mesmo tempo”, explicou a Universidade de Stanford em comunicado.

A experiência também trouxe indícios de que esta mesma injeção pode vir a funcionar como uma vacina preventiva contra determinados cancros. Os investigadores estão a testar a possibilidade de poderem injetar o mesmo “cocktail” de produtos biológicos em nódulos mamários de pessoas com predisposição para o cancro da mama e assim evitar o aparecimento do tumor no futuro. Em laboratório, e em ratos, os resultados foram positivos. Em humanos, essa parte da experiência ainda não avançou para a fases de testes.

Que cancros podem ser tratados

A injeção foi testada em ratos com linfomas, cancros no cólon e cancros na mama. De acordo com o estudo científico a que o Observador teve acesso, esta terapia funciona para vários tipos de cancro, incluindo aqueles que surgem espontaneamente e sem que haja predisposição genética para eles. Tudo graças à ação conjunta de um anticorpo chamado OX40 e de uma molécula chamada CPG. Tanto o anticorpo como essa molécula pertencem ao grupo dos glóbulos brancos, células que pertencem ao sistema imunitário e que funcionam como escudo de agentes invasores e de doenças e têm como missão acordar as células T que deviam combater o cancro mas que foram adormecidas por ele.

Os dois englobam-se em grupos de glóbulos brancos diferentes: “O CPG faz parte do sistema imunitário inato e ativa as células dendríticas, que protegem o corpo de micróbios invasores; e o OX40 liga-se à membrana das células T adormecidas através de uns braços que tem à superfície e dá-lhes um sinal para despertarem e patrulharem o corpo humano. Quando utilizados em conjunto, o CPG dá um empurrão ao OX40 nessa função de despertar as células T localizadas no tumor“, descreve Bruno Silva Santos: quando a injeção de um micrograma é dada diretamente no tumor, “uma pequena parte de ADN chamado CPG faz uma parceria com células imunitárias na vizinhança para ampliar a expressão do recetor do OX40 na superfície das células T. O anticorpo ativa essas células T para liderar o sistema imunitário na batalha contra as células cancerígenas“, conta a Universidade de Stanford em comunicado.

Quando acordam do sono profundo em que entraram dentro do tumor, as células T deixam a massa tumoral que foi vacinada e entram na corrente sanguínea. Uma vez em circulação pelo organismo, esses linfócitos conseguem destruir outros tumores ou metástases que encontre noutros lugares, mesmo que fiquem muito longe do sítio onde o cancro apareceu originalmente. Mais do que isso, a injeção foi capaz de prevenir a ocorrência de outros tumores no futuro e aumentar em várias semanas a esperança média de vida dos ratos tratados.

O resultados são fidedignos?

Este procedimento resultou em 87 dos 90 ratos testados em laboratório, uma percentagem “suficientemente esperançosa e com potencial” para que a experiência vá agora ser testada em doentes com linfomas. Mas a verdadeira provação vem agora, explica Bruno Silva Santos: é que, embora os ratos sejam um dos animais preferenciais para testar tratamentos antes de avançar para terapias em humanos, há diferenças entre nós e os roedores que podem comprometer a eficácia de uma experiência ao avançar para testes clínicos. Por exemplo, “os ratos normalmente usados em laboratório são gémeos uns dos outros e partilham entre si a mesma informação genética, por isso é normal que um medicamento que funcione num também vá funcionar na esmagadora maioria dos outros“, esclarece o cientista. Na vida real não é assim: há uma variedade genética muito maior porque “somos todos diferentes uns dos outros”, por isso é mais difícil que o mesmo medicamento funcione com o mesmo sucesso em quase toda a gente.

Há outra diferença entre os testes em ratos e os mesmos testes em humanos que é preponderante: o tempo. Neste estudo com roedores, os tumores desenvolvem-se numa questão de dias, depois são tratados muito rapidamente e o cancro desaparece ao fim de poucos dias. Em humanos, as coisas não funcionam da mesma maneira: os tumores podem demorar anos a desenvolver-se, às vezes não são detetados nas fases iniciais e também demora muito tempo até que desapareçam por completo. Além disso, não há certezas sobre a taxa de reincidência (a percentagem de animais em que o mesmo cancro ou outro diferente regressa ao organismo): estes ratos foram observados ao longo de 25 semanas — o que equivale sensivelmente a seis meses –, enquanto no ser humano a maior parte das pessoas que tiveram cancro precisam de estar atentas a uma possível reincidência da doença durante pelo menos cinco anos.

Como vai ser a experiência em humanos

Agora há 15 pacientes de linfoma que vão receber o mesmo tratamento para se saber se a injeção também funciona em humanos. De acordo com Bruno Silva Santos, as novas terapias em fase de teste clínico costumam ser experimentadas em doentes com melanomas ou cancros da mama. No entanto, já há imunoterapia com provas dadas nas áreas dos melanomas e, quanto ao cancro da mama, ainda não há provas concretas e verificadas cientificamente que demonstrem que o sistema imunitário por si só consegue combater um tumor desses. Testar a injeção em pacientes de linfoma é, por um lado, jogar pelo seguro porque foi com esse tipo de tumores que os cientistas alcançaram melhores resultados; e por outro lado é mais promissor porque é onde há mais falta de alternativa às terapias convencionais.

Se tudo correr bem na primeira fase dos testes clínicos e a eficácia da injeção for alta junto das primeiras quinze cobaias, o mesmo medicamento passa para a fase 2 e será testado em cerca de três centenas de pessoas. Por essa altura, já as agências que regulam as drogas utilizadas na medicina vão ponderar se o medicamento pode ser levado para os hospitais. Na fase 3, se a injeção obtiver bons resultados em cerca de mil doentes, tudo vai depender de valores: “Se os custos forem viáveis e lógicos, as instituições como o Sistema Nacional de Saúde vão estar dispostos a aprová-lo”, explica-nos o vice-diretor do Instituto de Medicina Molecular. E há três características que podem ter para isso vir mesmo a acontecer: a injeção ser mais barata que as terapias convencionais, ser mais cara mas com taxas de sucesso superiores ao que tem sido alcançado com os remédios já aprovados ou os efeitos secundários serem menos nocivos do que os verificados nas outras terapias.

Fonte: Observador

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